poemas do mês || dezembro 2008

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title: vampiros pós-modernos

style: poema a partir de uma conversa
date: após o evento Kineclubb 3.0 | 22.12.2008 | 03h30min


os vampiros modernos
não são eternos
nem precisam de jugulares
para se manterem em dia
com suas vidas seculares
mantidas pelos hospedeiros
de seus desejos vulgares
típicos de mosquitos, ratos
pulgas, sanguessugas
... e carrapatos

podem morrer de aids
diabetes, ebola, alzheimer...
mas as causas mais comuns
de seus óbitos elementares
variam como as celebridades
entre a soberba e a mediocridade
vitimas dos vírus vivos da decadência
o que mais mata esses anêmicos
é a inveja, a hipocrisia, o ciúme
... e a vaidade

já não temem o sol
nem a imagem da cruz
ou o cheiro do alho
estacas no coração
preces e balas de prata
não exterminam
esses inocentes espantalhos
só são vulneráveis mesmo
ao tédio, às responsabilidades
... e ao trabalho

seus métodos de sucção
independem dos velhos caninos
e se tornaram mais letais
que as invasões intra-venosas
já que evoluíram
para além da morte
com suas vidas sem destino
trocando as bi-polares mordidas
por lambidas de suas línguas
... venenosas

do sangue à transfusão
seringas são descartáveis
o furto da alma por um fio
acontece nos domínios do divino
cheios de fabulosas
... novidades

na verdade,
novos vampirinhos são zen-bonzinhos
absolutamente cínicos e fofoqueiros
sugam toda sua energia vital
enquanto você pensa neles
e o assunto girar em torno
de prestígio, bajulaçao, poder
... e dinheiro

title: visão publicitária

style: poema de estalo
date: escrito vendo TV, em casa | 20.12.2008 | 04h10min


a audiência aumentaria
e os espaços publicitários
gerariam negócios fantásticos
se a cada corrida de fórmula hum
um ayrton senna fosse sacrificado
num desastre extraordinário

na sociedade ultraliberal
sem sangue, alguns altares
não confirmam milagres

title: trocando fases

style: poema de estalo
date: escrito vendo TV, em casa | 20.12.2008 | 03h40min


estão alternado tudo
virando valores
mudando de lado

até o soro intra-venoso
é algo negativo
se for soropositivo

title: tropicalismos clássicos

style: poema escrito em guardanapo
date: escrito no bar ITAHY - Leblon| 17.12.2008 | 02h15min


... é impressionante
como nas temperaturas tropicais
baste uma tarde morna
para que o sol se ponha
e as aleluias procurem
a luz...

... é incrível
como nos trópicos
uma noite quente
é o suficiente
para que os mosquitos
se multipliquem
e, ainda muito meninos,
brincando de vampirinhos
saiam nos picando
por aí...

... é fabuloso
como os tropicalistas
sabem que as cigarras
morrem cantando
como sabem
que são as borboletas
as escolhidas pelos alfinetes
nos quadros da mais genuína
art-naïf...

title: ciúmes sem amor

style: poema de improviso
date: realizado durante o evento KINECLUBB 2.0 | 14.12.2008 | 22h15min


para decapitar capitu
a mentecapta
ao ciumento que por ela mata
enquanto dela está desconfiado
uma guilhotina afiada não basta
... é preciso usar um machado!

title: novo bispo

style: poema de improviso
date: realizado durante o evento KINECLUBB 2.0 | 14.12.2008 | 22h05min


acho que vou fundar uma igreja
já que existem tantas religiões
disponíveis no mercado

nomear-me-ei bispo
bispo do rosário segundo
aquele que
ao invés de ensinar padre a rezar missa
faz a missa ensinar o padre a rezar

title: escola

style: poema de improviso
date:falado durante o evento da UBES, com os Voluntários da Pátria, em Guarulhos (SP) | 10.12.2008 | 23h20min


um dia, antes do juízo final
os alunos vão aprender
que estão na escola
para ensinar os professores
a darem aulas

um dia, depois do juízo final
nem professores nem alunos
vão se encontrar mais
na escola

title: hyper-modernismo

style: poema de anotações
date: escrito durante o evento da UBES, com os Voluntários da Pátria, em Guarulhos (SP) | 10.12.2008 | 23h00min


quando tudo está à venda
o desejo é humilhado
o perdão não faz sentido
se não há culpa no pecado

compre sua felicidade
escolha a marca do seu gado
pague pela liberdade
de ser fudido e mal pago

você está num vale-tudo
onde nada vale nada
e ninguém está do seu lado
não adianta ficar puto
você vai virar produto
no varejo e no atacado

assuma várias identidades
e aproveite a promoção
psicose e esquizofrenia
com direito a cenas de inclusão
...e exclusão.

é assim mesmo que o certo
vai te provar que está errado
a fé da sua religião
tem estoque ilimitado
sua igreja chama shopping
e o deus dela é o ...mercado!

title: rebelde com causa

style: poema de improviso
date: falado durante o evento da UBES, com os Voluntários da Pátria, em Guarulhos (SP) | 10.12.2008 | 22h45min


antes,
no berço da juventude
havia um rebelde sem causa
baderneiro e inconseqüente

... evoluímos
e agora,
a baderna continua
o rebelde ainda é jovem
mas tem causas e bons motivos
para criar uma confusão
cheia de conseqüências
seríssimas

title: rock sem refrão (pós-moderno)

style: poema para cena teatral 2
date: escrito em casa ouvindo Legião Urbana | 09.12.2008 | 12h00min


eu escrevi essa canção para o meu futuro
lembrar de mim quando me ultrapassar
antes que a vida me trouxesse para esse mundo
meu segredo mais sagrado está no meu DNA

eu sou humano e para mim o fim do mundo
começou antes que eu pudesse começar
vivo o agora, sem passado e sem futuro
falando com todo mundo sem sair do lugar

eu tô ligado, mano numa irmandade
a minha gang é uma banda de celular
estamos sós nos encontrando pela cidade
comprando felicidade sem dinheiro para gastar

pago pra ver a tua senha craqueada
lido com vírus que não podem me matar
estou cercado de fanáticos e malucos
meu trabalho não dá lucro nem eu quero trabalhar

a liberdade que eu tenho é muito doida
nela tem tudo que sobra na solidão
me identifico sozinho comigo mesmo
não sou crítico e não tenho nem fé nem religião

não me permito a ganhar o jogo que eu banco
nem faço guerra porque não sei militar
por coisas fúteis que só cabem no meu bolso
amor, eu pago com o troco e deixo o mercado quebrar

pago pra ver e entender o quanto dura
o amor eterno que eu desejo para mim
mas se não sinto saudade nem tenho nenhuma culpa
ou esse amor não tem começo ou nunca vai ter fim

o amor e a vida gostam muito do futuro
como os rebeldes gostam de revolução
só tem passado quem se lembra de tudo
e é capaz de sentir dor até quando pede perdão

conheço deuses que ainda me socorrem
quando, inseguro, acho que perdi a razão
à minha volta há os que vivem e os que morrem
enquanto um entra com a grade
o outro entra com a prisão

meus desejos satisfeitos não têm uso
há tantas coisas que eu não posso comprar
sou consumado por tudo que consumo
acendo o fogo para a fogueira
me dar lenha pra queimar

e é assim que todo gêlo do meu mundo
começou lentamente a derreter
havia sol e uma luz no fim do túnel
passei para o outro lado e dei de cara com você

você sou eu quando acordo de um sonho
me perguntando se meu pai é meu irmão
protestando como protesta essa música
que eu acho que só é minha
enquanto não tiver refrão!

title: pornografia contemporânea

style: poema escrito em guardanapo
date: escrito no Bar Veloso - Leblon | 08.12.2008 | 02h25min


não sature
meu espaço público
com a sua privacidade

title: celular com camera

style: poema improvisado
date: realizado durante o evento KINECLUBB 1.0 | 07.12.2008 | 21h45min


ontem usei a prótese sensorial
que todo mundo usa
para se comunicar
com o espaço sideral

... e vendo você
na telinha do celular
dei-me conta
de que pagava uma conta
para te ver e ouvir
onde você estava
não estando onde estou
nem antes nem depois
que te falei onde estava
e não te encontrava
te pedindo: vem prá cá

title: um tiro

style: poema para cena teatral
date: escrito em casa ouvindo Legião Urbana | 03.12.2008 | 04h20min


aconteceu, durante uma noite medonha
olhando o sol e vendo o dia alvorecer
lembrei do tempo em que ainda havia aquele muro
separando o futuro do que ia acontecer

mas acontece que o tempo não existe
e o que acontece não dá mais para esquecer
se alguém me diz que existe um tal de fim do mundo
digo que esse mundo, quando começou
não precisou nem de mim nem de você

o mesmo sol que brilhou naquele dia
brilhou na lua cheia quando eu conheci você
até que alguém deu aquele tiro no escuro
e uma bala perdida e sem futuro
te encontrou pelo caminho, meio sem querer

eu só ouvi o eco do estampido
e a terra levemente sob os meus pés tremer
era nóis dois se amassando contra o muro
num escurinho tão seguro
que a gente teve coragem e começou a fuder

...mas, de repente: todo o gêlo do meu mundo
começou lentamente a derreter
no meu abismo, eu via a luz no fim do túnel
eu estava de pau duro dentro de você

você gemia da melhor dor que há no absurdo
sentindo o amor na carne que os vermes vão comer
quando um tiro do fuzil do vagabundo
saiu em busca de um defunto
e acabou pegando em você

havia dor e sangue na cena daquele crime
quando o rabecão e a polícia chegaram junto com a tevê
ainda deu tempo para vestir teu corpo ensanguentado
...depois, fiquei ali, sozinho
sem ter para onde ir e sem saber o que fazer

não me arrolaram nem como testemunha
estive mudo como quem não tem nada a dizer
ninguém imaginou que eu estive ali, contigo
só eu sei que enquanto você morria
descontrolado eu te fudia até gozar no mesmo tempo
que voce levou para morrer

saí daquela cena macabra como quem levou um susto
culpando todo mundo pelo que me aconteceu
a minha vida não fazia mais sentido
ninguém era meu amigo
nem eu tinha mais o que já não era meu

tudo em que eu acreditava desabou na minha frente
e, naquele instante, a solidão era tudo que eu podia entender
eu vi meu mundo se acabar enquanto eu fudia
delirando de alegria e suando de tanto prazer
naquele instante, eu saia de mim apaixonado pela vida
e não estava atento ao que acontecia
nem ao que poderia me acontecer

mas foi aí que eu começei a ficar vivo
enquanto à minha volta todos queriam morrer
ou ficar ricos e famosos como os astros do atletismo
conhecidos até por alguém que nunca hão de conhecer

quando o mundo parece que está perdido
é que a gente sabe que tem que arranjar um jeito
e não ter medo de sobreviver
olhar do pódium o mais fundo dos abismos
é uma lição dura de aprender
mas só mesmo enfrentando a sorte ou a morte
é que a gente aprende a vencer

os meliantes, os amantes e até os mendigos
sabem que uma guerra não deve acontecer
mesmo que para todo tirano sempre haja um castigo
uma vida além da morte é mais do que se pode ter

eu nem sabia que eu tinha um poderoso escudo
me protegendo do que eu não sabia que ia acontecer
só quando vi a morte roubar de mim
um amor que para mim era tudo
é que tive que mudar meu modo de ver
a vida que deus me deu para viver

ainda hoje, eu te amo e te relembro
mas já não escuto o tiro que sobrou para você
nunca me esqueço do nosso amor naquele muro
e enquanto penso no futuro
sei que será por você
só para re-encontrar você
que um dia desses eu vou morrer

se este mundo já não é mais o meu mundo
e se o amor que eu perdi só eu posso esquecer
pode nem haver um novo amor no meu futuro
mas só se eu for um burro e cair num mata-burros
não vou fazer de tudo para sobreviver

eu não sabia que os sonhos levavam tempo
para fazerem acontecer o que se quer ver acontecer
agora, eu sei que eles independem do meu desejo
e, sem pedir licença, fantasiados de pesadêlos
podem me surpreender

mesmo que eu morra sem ter feito tudo que quis
tudo que eu fiz te amando naquele muro
valeu um mundo que morreu com você
aquele tiro te pegou me amando muito
tanto que morri em vida vendo teu corpo desfalecer

não demorou nem mais do que um dia
e eu vi teu caixão ser escondido no teu túmulo
e sob a terra desaparecer
naquela despedida triste e sob uma chuva rala e fria
a vida me deu forças para que eu pudesse compreender
que nem eu nem deus, naquele dia
poderíamos fazer mais do que fizemos por você

daí dos céus, onde tua alma deve estar segura
imagino que você pode me ver sofrer

aí de cima, o abismo sempre será o mais profundo
enquanto aqui embaixo, tudo puder acontecer

portanto, já não culpo deus por ter me abandonado
nem por ter deixado você, me amando, morrer
se deus existe ou é um ser de outro mundo
é uma pergunta que não me diz respeito
e que só mesmo deus pode responder

title: dabliu-ó, joão

style: poema para distrair as idéias
date: escrito em casa| 02.12.2008 | 11h15min


se você ganhar num jogo
pelo escore de dabliu-ó
é você quem sai perdendo
por ter jogado num jogo só
assim, como joão
e seu sambinha de uma nota só

lembro daquele show, joão
caro, para a burguesia
cheio de pompa no teatro municipal
naquela noite, ninguém viu seu violão
naquele tempo real
consumado o que se consome
toda ausência passou a ser normal

joão fez forfait e sumiu
faltou peça no dominó
uma face sumiu do dado
e o resultado foi dabliu-ó

ninguém ouviu joão tocar
mas todo mundo viu o que viu
e acabou vendo que ele tava lá
invisível como o violão
que ninguém ouviu tocar

por dabliu-ó
ninguém perde um jogo
que não foi jogar

title: católico ortodoxo

style: poema de estalo
date: escrito no Bar Chopp Real - Copacabana | 01.12.2008 | 21h45min


eu não sou deus
mas brincar de Jesus
é ótimo
as verdadeiras madalenas
adoram

title: religiosamente correto

style: poema de estalo
date: escrito no Bar Chopp Real - Copacabana | 01.12.2008 | 21h30min


nem leão nunca foi tigre
nem caviar é camarão
nem dicionário é pai de burros
nem todo murro se dá com a mão

tem dinheiro que não tem valor
tem valor que não tem dinheiro não
linhas de crédito são desenhadas
na palma da tua mão

se o que te falta é dinheiro
reze pra não te faltar o pão
com um se compra o mundo inteiro
o outro vale uma refeição

em nome da cashemira
há quem viva no paquistão
o alá de lá não criou eva
da costela de nenhum adão

na bósnia-herzegovina
não é fácil ser do islão
hindús cantam por govinda
budistas prendem a respiração

deus não está preocupado
em pagar salários prá cristão
nem está predestinado
a arranjar para Jesus, um irmão

aleluia é uma palavra tão mágica
quanto abracadabra
ali-babá: quem é teu ladrão?
para quem tem fé
e crê em algum cristo
o que não é falta é religião

title: tempo real

style: poema de estalo
date: escrito no Bar Chopp Real - Copacabana | 01.12.2008 | 21h10min


em tempo real
os verbos não têm tempo
de nos informar em que tempo
estão sendo conjugados
como se o presente do indicativo
indicasse que
em tempo real
não tem futuro nem passado

em tempo real
eu te amo é outra coisa

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