poemas do mês || janeiro 2009

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title: a guerra e as mulheres

style: poema in progress
date: 10ª Festa Araka | 27.01.2009 | 02h20min


eram todos judeus
e chegaram com seus tanques e bazucas
criando fumaça e destruindo casas
lutavam contra inimigos seculares
mas não trouxeram suas mulheres para morrer
como as que mataram atingindo alvos militares

eram todos católicos, nos balcãs
quando invadiram a maternidade
e à baioneta calada fizeram partos cezários
nos quais, aos gritos, pereceram mães e filhos
sem terem um só cordão umbilical cortado

eram todos muçulmanos
e orando para allah explodiram-se
pelas ruas e mercados
não levaram suas mulheres para ver
o que elas veriam nas televisões
quando caíram os edifícios
que derrubaram

eram todos negros
matavam-se uns aos outros
desde que as etnias não se complementassem
e a cor da pele fosse ignorada
não trouxeram suas mulheres para a carnificina
mas mataram as que encontraram a bordoadas

eram todos amarelos
quando entraram na praça
passando por cima do camping
dos estudantes amotinados
deixaram suas mulheres em casa
para não terem que ver
crianças serem assassinadas

eram todos índios nus
e estavam nas américas
há mais tempo do que se podia imaginar
quando eles chegaram nas caravelas
vestidos da cabeça aos pés
não trouxeram suas mulheres católicas
para que não testemunhassem
o julgamento dos infiéis

os homens sabem que
não devem levar uma mulher à guerra
ela pode atrapalhar tudo
pode se horrorizar e sentir medo
pode confundir os uniformes
se apaixonar por um inimigo
achar que a morte é castigo
e chorar sem parar
provocando grande desassossego

uma mulher num campo de batalha
pode não se sentir à vontade
com o que numa guerra se faz
e sem entender o motivo da briga
dificultar que missões sejam cumpridas
falando o que não deve ser dito
fazendo escândalos e outras coisas mais
ou exigindo que tanta tristeza
deixe que a vida dos homens que amam
siga em frente sem olhar para trás

não se leva uma mulher para a guerra
porque dela ela nada espera
e com ela ela não se satisfaz
não se leva uma mulher para a guerra
porque, de repente,
ela pode levantar a saia
e fazer com que toda aquela merda
não seja nada demais
mulheres só entram nas guerras
se for para pedir que elas se acabem
e deixem que os homens que elas amam
voltem correndo para casa
para com elas viverem em paz!

title: parabéns, poeta

style: poema à la Torquato neto
date: meu aniversário | 26.01.2009 | 11h10min



parabéns para mim?
só porque faço anos nesta data,
querida...

e ainda me vem dizer
que a poesia é minha vida
como se eu me devotasse
à ela

não entendeu nada
nem que o que acontecia
era justamente o contrário

os nomes e as coisas
não fazem aniversário

title: democracia

style: poema após leitura de Kant
date: em casa | 21.01.2009 | 01h45min


pensar a democracia
em um ambiente disciplinado
com a ordem em ordem
e tudo funcionando certo
mesmo quando tudo está errado
da mensagem ao recado
é muito fácil

mesmo que a democracia
dos tempos iluministas
exija um repertório
de conhecimentos extraordinários
pouco disponível para esquecidos
sem sentido e inútil
para os otários
ela continuará alegre ou triste
tirando o sono dos milionários
inventando crise financeira
para cortar os salários
dos mercenários

quem for capaz que tente
pensar a democracia
no caos
sem que a bagunça bagunce
o que parece normal
antes tarde do que perto
do final

nesses tempos futuros
em que o passado passa
presente
essa será a tarefa revolucionária
dos que sabem
que a democracia
resiste à mediocridade
e zomba da hipocrisia

até quando está ausente
e perdida das utopias
que se esqueceram da gente
ela se reinventa fênix
e renova sua energia

mesmo que a ducha seja fria
algo me diz que a democracia
sobreviverá a todas as agonias
e ainda escreverá na sua lápide
a última das últimas poesias

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